Os desafios da medicina veterinária e o sofrimento psíquico da profissão
Você sabia que profissionais da medicina veterinária enfrentam desafios que podem gerar intenso sofrimento psíquico, no Brasil e no mundo?
No Brasil, um estudo realizado pelo IBGE, que avaliou anos de estudo, renda mensal e horas trabalhadas por semana em diversas profissões, revelou que a medicina veterinária é uma das profissões mais precarizadas. A média de anos de estudo exigida para a atuação na área é de 15,84 anos, ficando atrás apenas de dentistas (15,89) e médicos/anestesistas (15,94). Ainda assim, é a profissão com a maior carga horária semanal entre as que exigem mais de 15 anos de estudo, com uma média de 41,12 horas semanais.
Esses dados foram discutidos em um estudo inédito que realizei em 2019, durante minha graduação, no qual investiguei as condições de trabalho e o sofrimento psíquico na medicina veterinária.
Apesar da longa formação e da alta carga de trabalho, a renda média dos médicos veterinários é uma das piores entre as profissões com alto grau de escolaridade. Para se ter uma ideia, o rendimento mensal desses profissionais representa apenas 43,5% do rendimento de médicos/anestesistas, ou seja, menos da metade, ainda que desempenhem mais horas de trabalho e tenham praticamente o mesmo tempo de formação.
Essa precarização material se soma a uma série de desafios emocionais e éticos próprios da prática veterinária: o luto pelos animais que não sobrevivem, a sensação de fracasso diante da morte de um paciente, as demandas por eutanásia em situações em que os tutores não conseguem arcar com os custos do tratamento, os plantões extenuantes com baixo retorno financeiro, além das dificuldades nas relações com os tutores dos animais.
Essas vivências, embora profundamente impactantes, raramente são abordadas durante a formação acadêmica. Assim, muitos profissionais se deparam com esses dilemas na prática, sem preparo emocional ou recursos simbólicos para lidar com eles.
Por isso, o cuidado com a saúde mental de médicos veterinários é fundamental. A psicanálise não oferece respostas prontas ou receitas de enfrentamento, mas propõe um espaço onde o sujeito possa se implicar com sua história e construir caminhos mais singulares para lidar com o sofrimento. É uma escuta que aposta no desejo, na invenção e na possibilidade de elaborar repetições que muitas vezes aprisionam.
Nesse processo, é essencial que o analista também reconheça as dimensões sociais e materiais envolvidas na história de cada sujeito, evitando interpretações reducionistas ou descontextualizadas. Uma escuta ética, respeitosa e fundamentada em saberes clínicos e sociais pode ser mais transformadora do que qualquer orientação ou resposta direta.
“Foi sempre assim?”: a construção histórica do preconceito de gênero
O preconceito de gênero traz jargões naturalizados e enraizados na cultura, como “Deus fez o homem e a mulher”, “Biologicamente só existe XX e XY”, “Isso é coisa de homem” ou “Isso é coisa de mulher”. Mas será que foi sempre assim? Será que essas são mesmo verdades naturais? Qual a origem desse tipo de fala? O que sustenta esse tipo de discurso?
No meu percurso profissional e pessoal, me fiz essas perguntas, busquei respostas e compartilho aqui um pouco sobre como e por que essas ideias foram sendo construídas ao longo da história.
Foucault (1988) explica que, no século XVIII, na Europa, começou-se a perceber que os desdobramentos do sexo implicavam em questões populacionais, políticas, econômicas e de saúde. Assim, o sexo, que já era controlado pela religião cristã, especialmente por meio da confissão, desde o século XVII, passou também a ser alvo do discurso médico, jurídico, psiquiátrico e pedagógico.
No entanto, ao contrário do que se poderia imaginar, essa multiplicidade de discursos não resultou em maior liberdade sexual. Pelo contrário: esses saberes se somaram ao posicionamento repressivo da Igreja e aos interesses de uma sociedade capitalista em formação, baseada no lucro e na necessidade de manter uma força de trabalho abundante. Naquele período, a expectativa de vida dos trabalhadores era baixa, e a Revolução Industrial exigia grandes contingentes de mão de obra.
Dessa forma, práticas sexuais que não tinham como fim a reprodução passaram a ser patologizadas pelo saber médico como perversões e, muitas vezes, levadas à condenação judicial. Esse tipo de marca se perpetua até hoje em países que criminalizam, por exemplo, a homossexualidade.
Já o argumento biológico de que só existem cromossomos XX ou XY se desfaz quando consideramos a interssexualidade, a letra I da sigla LGBTQIAPN+. Segundo a página da ONU Brasil (2021), pessoas intersexo nascem com características sexuais que não se encaixam nas definições típicas de corpos masculinos ou femininos. Isso pode envolver genitália, órgãos reprodutivos, padrões hormonais e/ou cromossômicos, como o caso de indivíduos com cromossomos XXY, entre outras variações possíveis.
Esses são apenas alguns exemplos que revelam como discursos que se apresentam como “naturais” ou “absolutos” são, na verdade, produtos históricos, com raízes em interesses políticos, religiosos e econômicos. Muitos desses discursos foram impostos durante o colonialismo, como formas de controle e dominação de corpos e subjetividades e seguem sendo repetidos, muitas vezes, sem consciência de sua origem.
Em análise, percebemos que o sofrimento de quem é atravessado por esses discursos não está só na exclusão social, mas também na culpa, na vergonha e nos silenciamentos que se repetem de forma inconsciente. Escutar isso, dar forma a esse mal-estar, pode ser o início de uma nova narrativa.